Dia do voluntário, como blumenauenses ajudaram os gaúchos no desastre climático 

Evelyn Guarnieri

Hoje é o Dia do Voluntário, e nos últimos meses testemunhamos a mobilização de brasileiros de todo o país para ajudar nossos irmãos gaúchos, que enfrentam uma das piores crises climáticas já registradas no Rio Grande do Sul. A tragédia ceifou a vida de mais de 182 pessoas, com 29 ainda desaparecidas. Esses números, por si só, já são devastadores, mas a destruição também alcançou lares, plantações e rebanhos, ampliando ainda mais o cenário de desolação.

Foto: Elieo Valmor da Costa

Em momentos tão delicados, a solidariedade se tornou essencial. Blumenau, por exemplo, enviou mais de 100 toneladas de doações e mobilizou inúmeros voluntários capacitados para auxiliar as vítimas e as prefeituras. Para refletir sobre essa experiência e o impacto na vida desses voluntários, conversamos com alguns deles. Um exemplo é Elieo Valmor da Costa, motorista de caminhão do SAMAE (Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto) de Blumenau, que compartilhou sua visão ao responder à pergunta: “De que maneira o trabalho voluntário durante a tragédia no Rio Grande do Sul transformou a forma como você vê a vida e o que passou a valorizar mais?”

“No começo, quando eu cheguei lá, foi um baque, foi muito triste. A gente chegou lá, a água ainda estava alta. Então, conforme a água foi baixando, e a gente conseguiu começar a trabalhar, vimos muita coisa ruim, mas também muitas pessoas agradecidas. Onde eu parava o caminhão, as pessoas vinham até a porta para agradecer por estarmos ali ajudando. Vi muitas pessoas passando fome. A gente ia almoçar na beira da rua, comia marmita, e elas vinham pedir a nossa comida, pedir um pouco de água. É uma coisa muito triste. Até hoje eu ainda penso muito nisso, às vezes dá vontade de chorar; já chorei muito. Agradeço a Deus pela vida que eu e minha família temos, porque o que eu vi lá, acho que nunca vou esquecer. Senti muita saudade da minha família; fiquei 43 dias lá. Mas, quando cheguei lá e vi aquelas famílias tristes, e depois, quando saí, senti que estavam um pouco mais alegres, pois conseguimos reconstruir um pouco a cidade. Ficou tudo limpo, desobstruímos todas as ruas. Eu senti a dor daquelas famílias. Algo que me impactou muito foi quando um pai, com uma criança no colo, pediu minha marmita. Na hora, fiquei sem reação, não sabia se entregava, se recusava. Isso me marcou, fiquei muitos dias pensando nisso.”

Elieo ajudou inúmeras famílias ao limpar vias bloqueadas, permitindo que muitas pessoas voltassem para seus lares e recomeçassem suas vidas. No entanto, nem todos tiveram a sorte de escapar a tempo. A tragédia foi tão rápida que muitos pertences valiosos foram deixados para trás, e vários animais, acorrentados em suas casas, infelizmente não tiveram uma segunda chance, perdendo a vida. Essa é apenas uma das dolorosas cenas que Eliel presenciou.

“Vi corpos de animais, amarrados em correntes, mortos sem ter chance de lutar por suas vidas. Vi cachorros mortos no meio dos entulhos, e uma vez, uma máquina colocou, sem querer, um cachorro em cima da minha caçamba. Quando fui despejar, vi muitas cenas assim, muito tristes.”

Foto: Pamela Schutze

Apesar da crueldade da natureza, muitas vidas foram salvas graças a pessoas generosas e dispostas a ajudar. A veterinária Pamela Schutze, por exemplo, atuou no abrigo de animais na Universidade Ulbra, em Canoas, e compartilhou sua experiência nessa missão.

“Em maio, fui fazer voluntariado no Rio Grande do Sul. Posso afirmar que foi a melhor coisa que fiz. Cresci muito como pessoa. Não é um lugar que alguém deseja estar, mas, apesar das dificuldades, a gente tem que lembrar que está ali por um bem maior, pela empatia com os cães. Porque pensa, uma hora você está no conforto da sua casa e, na outra, está amarrado em um abrigo, sem conhecer ninguém, com inúmeros cães se estranhando. Mesmo assim, é super importante cuidar da saúde mental, porque, no meio de tanta tristeza, pode gerar um trauma. O que devemos levar em consideração é o quanto esses animais precisam de nós, de pessoas que dão amor, afeto, cuidam deles e limpam o local onde estão. Estamos saindo da nossa zona de conforto para ajudar quem mais precisa, num momento muito delicado. Passou um tempo desde a tragédia, e muita gente já esqueceu, mas a situação ainda não se estabilizou. Muitos animais ainda estão em abrigos e precisam de um lar de adoção. Sei que muita gente sonha em ter um animal de tal raça, mas chegou a hora de termos empatia e abrirmos nossas casas para um cãozinho resgatado. Claro, todos os animais merecem amor, mas nenhum merece viver amarrado ou num abrigo pelo resto da vida. Então, peço que, se tiverem condições e amor para dar, adotem um cãozinho. É o que eu peço.”

Se, assim como Pamela, você também deseja continuar ajudando o Rio Grande do Sul, o abrigo de Canoas, onde ela prestou socorro, tem uma página no Instagram: @caesresgatadoscanoa. Lá, diversos animais estão disponíveis para adoção. Além disso, você pode acessar o site https://adoters.org.br/ para ver fotos e obter informações detalhadas sobre sexo e idade dos cães e gatos prontos para encontrar um novo lar.

Foto: Jader de Liz

Vamos conhecer também a história de Jader de Liz, motorista de caminhão-pipa do Samae. Durante 15 dias, ele atuou em Lajeado com uma missão muito especial: entregar um caminhão verde-limão de brinquedo que seu filho de 8 anos pediu para que fosse dado a uma criança do local. A seguir, o depoimento de Jader:

“Contei para o meu filho que ia viajar para ajudar lá, onde estavam acontecendo as enchentes, e ele disse: ‘Eu quero ir junto, eu quero ajudar.’ E eu me perguntei: ‘Como vou explicar para uma criança de 8 anos, que tem a vontade de ajudar, que ela não pode ir?’ Então, disse para ele: ‘Vamos fazer o seguinte, você escolhe um brinquedo e eu levo para uma criança, para fazer uma criança feliz lá em Lajeado.’ Ele escolheu uma caminhonete verde-limão, e eu coloquei em cima do painel do meu caminhão. A partir daí, começou a saga do carrinho. Como eu faria para encontrar um abrigo onde pudesse entregar o brinquedo? Não podia simplesmente andar 30, 40 quilômetros com o caminhão para procurar. Mas, graças a Deus, nossa rota passava por um abrigo central, onde pousavam os helicópteros. Conseguimos chegar lá, e um senhor me ajudou a encontrar um garoto. Eles estavam num abrigo dentro de um ginásio, várias ‘casinhas’. Lá, encontramos o Nicolas e seu priminho, que estavam dormindo. Acordamos eles, e eu disse: ‘Estou procurando um menino para dar um presente.’ Nicolas ficou muito feliz e agradeceu. Eu disse que meu filho Victor tinha mandado especialmente para ele. Ele prontamente respondeu: ‘Cara, quero ser teu amigo, porque você me deu esse carrinho. Muito obrigado mesmo, estou muito feliz.’”

Esse foi Jader de Liz, motorista do Samae, um dos muitos blumenauenses que não hesitaram em ajudar o próximo quando mais precisavam. Nossa gratidão a todos os voluntários que se dedicaram a essa causa tão nobre.

Foto: Elieo Valmor da Costa

Foto: Pamela Schutze
Foto: Elieo Valmor da Costa

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Dia do voluntário, como blumenauenses ajudaram os gaúchos no desastre climático 

Evelyn Guarnieri

Hoje é o Dia do Voluntário, e nos últimos meses testemunhamos a mobilização de brasileiros de todo o país para ajudar nossos irmãos gaúchos, que enfrentam uma das piores crises climáticas já registradas no Rio Grande do Sul. A tragédia ceifou a vida de mais de 182 pessoas, com 29 ainda desaparecidas. Esses números, por si só, já são devastadores, mas a destruição também alcançou lares, plantações e rebanhos, ampliando ainda mais o cenário de desolação.

Foto: Elieo Valmor da Costa

Em momentos tão delicados, a solidariedade se tornou essencial. Blumenau, por exemplo, enviou mais de 100 toneladas de doações e mobilizou inúmeros voluntários capacitados para auxiliar as vítimas e as prefeituras. Para refletir sobre essa experiência e o impacto na vida desses voluntários, conversamos com alguns deles. Um exemplo é Elieo Valmor da Costa, motorista de caminhão do SAMAE (Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto) de Blumenau, que compartilhou sua visão ao responder à pergunta: “De que maneira o trabalho voluntário durante a tragédia no Rio Grande do Sul transformou a forma como você vê a vida e o que passou a valorizar mais?”

“No começo, quando eu cheguei lá, foi um baque, foi muito triste. A gente chegou lá, a água ainda estava alta. Então, conforme a água foi baixando, e a gente conseguiu começar a trabalhar, vimos muita coisa ruim, mas também muitas pessoas agradecidas. Onde eu parava o caminhão, as pessoas vinham até a porta para agradecer por estarmos ali ajudando. Vi muitas pessoas passando fome. A gente ia almoçar na beira da rua, comia marmita, e elas vinham pedir a nossa comida, pedir um pouco de água. É uma coisa muito triste. Até hoje eu ainda penso muito nisso, às vezes dá vontade de chorar; já chorei muito. Agradeço a Deus pela vida que eu e minha família temos, porque o que eu vi lá, acho que nunca vou esquecer. Senti muita saudade da minha família; fiquei 43 dias lá. Mas, quando cheguei lá e vi aquelas famílias tristes, e depois, quando saí, senti que estavam um pouco mais alegres, pois conseguimos reconstruir um pouco a cidade. Ficou tudo limpo, desobstruímos todas as ruas. Eu senti a dor daquelas famílias. Algo que me impactou muito foi quando um pai, com uma criança no colo, pediu minha marmita. Na hora, fiquei sem reação, não sabia se entregava, se recusava. Isso me marcou, fiquei muitos dias pensando nisso.”

Elieo ajudou inúmeras famílias ao limpar vias bloqueadas, permitindo que muitas pessoas voltassem para seus lares e recomeçassem suas vidas. No entanto, nem todos tiveram a sorte de escapar a tempo. A tragédia foi tão rápida que muitos pertences valiosos foram deixados para trás, e vários animais, acorrentados em suas casas, infelizmente não tiveram uma segunda chance, perdendo a vida. Essa é apenas uma das dolorosas cenas que Eliel presenciou.

“Vi corpos de animais, amarrados em correntes, mortos sem ter chance de lutar por suas vidas. Vi cachorros mortos no meio dos entulhos, e uma vez, uma máquina colocou, sem querer, um cachorro em cima da minha caçamba. Quando fui despejar, vi muitas cenas assim, muito tristes.”

Foto: Pamela Schutze

Apesar da crueldade da natureza, muitas vidas foram salvas graças a pessoas generosas e dispostas a ajudar. A veterinária Pamela Schutze, por exemplo, atuou no abrigo de animais na Universidade Ulbra, em Canoas, e compartilhou sua experiência nessa missão.

“Em maio, fui fazer voluntariado no Rio Grande do Sul. Posso afirmar que foi a melhor coisa que fiz. Cresci muito como pessoa. Não é um lugar que alguém deseja estar, mas, apesar das dificuldades, a gente tem que lembrar que está ali por um bem maior, pela empatia com os cães. Porque pensa, uma hora você está no conforto da sua casa e, na outra, está amarrado em um abrigo, sem conhecer ninguém, com inúmeros cães se estranhando. Mesmo assim, é super importante cuidar da saúde mental, porque, no meio de tanta tristeza, pode gerar um trauma. O que devemos levar em consideração é o quanto esses animais precisam de nós, de pessoas que dão amor, afeto, cuidam deles e limpam o local onde estão. Estamos saindo da nossa zona de conforto para ajudar quem mais precisa, num momento muito delicado. Passou um tempo desde a tragédia, e muita gente já esqueceu, mas a situação ainda não se estabilizou. Muitos animais ainda estão em abrigos e precisam de um lar de adoção. Sei que muita gente sonha em ter um animal de tal raça, mas chegou a hora de termos empatia e abrirmos nossas casas para um cãozinho resgatado. Claro, todos os animais merecem amor, mas nenhum merece viver amarrado ou num abrigo pelo resto da vida. Então, peço que, se tiverem condições e amor para dar, adotem um cãozinho. É o que eu peço.”

Se, assim como Pamela, você também deseja continuar ajudando o Rio Grande do Sul, o abrigo de Canoas, onde ela prestou socorro, tem uma página no Instagram: @caesresgatadoscanoa. Lá, diversos animais estão disponíveis para adoção. Além disso, você pode acessar o site https://adoters.org.br/ para ver fotos e obter informações detalhadas sobre sexo e idade dos cães e gatos prontos para encontrar um novo lar.

Foto: Jader de Liz

Vamos conhecer também a história de Jader de Liz, motorista de caminhão-pipa do Samae. Durante 15 dias, ele atuou em Lajeado com uma missão muito especial: entregar um caminhão verde-limão de brinquedo que seu filho de 8 anos pediu para que fosse dado a uma criança do local. A seguir, o depoimento de Jader:

“Contei para o meu filho que ia viajar para ajudar lá, onde estavam acontecendo as enchentes, e ele disse: ‘Eu quero ir junto, eu quero ajudar.’ E eu me perguntei: ‘Como vou explicar para uma criança de 8 anos, que tem a vontade de ajudar, que ela não pode ir?’ Então, disse para ele: ‘Vamos fazer o seguinte, você escolhe um brinquedo e eu levo para uma criança, para fazer uma criança feliz lá em Lajeado.’ Ele escolheu uma caminhonete verde-limão, e eu coloquei em cima do painel do meu caminhão. A partir daí, começou a saga do carrinho. Como eu faria para encontrar um abrigo onde pudesse entregar o brinquedo? Não podia simplesmente andar 30, 40 quilômetros com o caminhão para procurar. Mas, graças a Deus, nossa rota passava por um abrigo central, onde pousavam os helicópteros. Conseguimos chegar lá, e um senhor me ajudou a encontrar um garoto. Eles estavam num abrigo dentro de um ginásio, várias ‘casinhas’. Lá, encontramos o Nicolas e seu priminho, que estavam dormindo. Acordamos eles, e eu disse: ‘Estou procurando um menino para dar um presente.’ Nicolas ficou muito feliz e agradeceu. Eu disse que meu filho Victor tinha mandado especialmente para ele. Ele prontamente respondeu: ‘Cara, quero ser teu amigo, porque você me deu esse carrinho. Muito obrigado mesmo, estou muito feliz.’”

Esse foi Jader de Liz, motorista do Samae, um dos muitos blumenauenses que não hesitaram em ajudar o próximo quando mais precisavam. Nossa gratidão a todos os voluntários que se dedicaram a essa causa tão nobre.

Foto: Elieo Valmor da Costa

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